Acorrentada pela droga

Publicação: 29 de Setembro de 2013 às 00:00 | Comentários: 7
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Roberto Lucena - Repórter

Uma corrente e dois cadeados prendem a perna esquerda da menina à cadeira de metal. O corpo franzino quase não tem forças para arrastar o objeto pela sala. O atrito das correntes com o piso produz um som perturbador. Há três meses, Vanessa (nome fictício), 16 anos, é mantida acorrentada dentro da própria casa. A chave dos cadeados está com a mãe. Foi ela quem decidiu acorrentar a filha. Uma atitude extrema e desesperada com o objetivo de tentar salvar a filha de uma outra prisão: as drogas.
João Maria AlvesA TRIBUNA DO NORTE conversou com mãe e filha e conta uma história que, segundo o juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude de Natal, José Dantas, não é tão incomum como pareceA TRIBUNA DO NORTE conversou com mãe e filha e conta uma história que, segundo o juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude de Natal, José Dantas, não é tão incomum como parece

Usuária de maconha e crack há mais de quatro anos, a menina foge de casa e age com violência sempre que está livre. Acorrentada, Vanessa é mantida sob a vigilância da mãe, avô e irmãos. A história dramática é mais um exemplo do potencial de devastação das drogas e revela o lado da sociedade onde as políticas públicas de combate ao uso de entorpecentes não chegam.

“Minha filha começou a se drogar quando tinha 12 anos. No início era só maconha e não tinha tanto problema, mas, de uns tempos para cá, percebi que ela começou a usar outras drogas e ficou mais agitada e agressiva. Não era assim no início, mas ela passou a me xingar, brigar e quebrar as coisas. Eu não sabia mais o que fazer. O jeito foi acorrentar”, conta a dona de casa que prefere não expor a identidade.

A mãe perdeu as contas da quantidade de vezes que a filha fugiu de casa para se drogar. A família mora num dos bairros de maior vulnerabilidade social da zona Oeste da capital. Encontrar quem ofereça uma pedra de crack não é difícil. Trancar portas e janelas para evitar a fuga já não adiantava.

“Ela destelhava o teto e saía por cima. Pulava para casa vizinha e ia embora. Só voltava se a gente fosse atrás”, lembra a dona de casa e mãe de mais dois filhos – um jovem de 15 anos e uma menina de 12. “Quando tentava conversar, ela me esculhambava. Fazia coisa que eu nunca imaginava que seria possível”, completa.

A adolescente fala pouco. Quando a reportagem chegou à residência, na última quarta-feira, a menina fumava um cigarro de palha enquanto assistia um programa policial na TV. Esboçou um sorriso que, por um instante, trouxe leveza ao rosto marcado pelas consequências físicas de tantos anos consumindo drogas. Pés descalços, vestia uma blusa vermelha e short jeans curto. Nas unhas dos pés, esmalte vermelho. Um piercing no nariz, anéis, pulseira e brincos enfeitam a menina.

Não há marcas ou feridas no calcanhar onde a grossa corrente está pendurada. Dois cadeados seguram a prisioneira à cadeira. Ela se movimenta pouco. Caminhar arrastando o assento é difícil. Levanta para verificar a panela que está no fogão e volta a se sentar. Onde vai, carrega o peso. Os momentos de liberdade são restritos a ida ao banheiro. À noite, a corrente e cadeados acompanham a menina no leito onde dorme.

As respostas são curtas e vazias. Às vezes, sem nexo. “Não sei o porquê estou aqui. Queria que alguém respondesse”, diz quando questionada sobre sua situação. “Se eu saísse, ia na casa de uma amiga pegar uma calça que está lá”, é a resposta sobre o que gostaria de fazer. “Levar injeção, é? Queria sim”, dispara ao comentar a possibilidade de se submeter a tratamento médico. Outras perguntas foram feitas, mas o silêncio e um olhar vazio encerraram a conversa.
João Maria AlvesEm atitude extrema e desesperada, uma mãe acorrenta a filha de 16 anos para tentar salvá-la do mundo das drogasEm atitude extrema e desesperada, uma mãe acorrenta a filha de 16 anos para tentar salvá-la do mundo das drogas

O irmão de 15 anos conta o drama de ter uma irmã viciada. “Quando ela saía, eu que ia atrás. Sempre era uma briga. Ela me batia, rasgava minha roupa. Não gosto de ver ela presa, mas é melhor do que se estivesse na rua”, pondera.

Uma equipe do Programa Saúde da Família (PSF), durante visita ao avô da garota, foi quem questionou a mãe sobre a condição da filha. Os profissionais contam que procuraram vagas na rede de assistência municipal, mas não encontraram. O Conselho Tutelar da área não foi avisado. “Não procurei ninguém. Não sei a quem recorrer, mas quero que ajudem minha filha”, explicou a mãe.

O juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude de Natal, José Dantas, explica que, em casos como o de Vanessa e outros que envolvem direitos de crianças e adolescentes, a primeira providência é procurar o Conselho Tutelar. “É o órgão de porta de entrada. Os conselheiros vão orientar como proceder”, diz. O magistrado explica ainda que, mesmo com motivos justificáveis, a mãe comete crimes ao acorrentar  a garota. “Pelo menos os maus tratos já estão caracterizados. Mas, na minha visão, essa mãe precisa mais de apoio que punição”.



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Comentários

  • gilbertopmelo

    Os grupos que defendem a legalização das drogas deveriam ajudar, a maconha é apenas a porta de entrada para outras drogas mais pesadas, me apontem um viciado em qualquer que seja a droga que tem liberdade de escolha, ou seja, a droga é quem comandar a sua vida, o viciado não passa de um escrava da droga e do trafico. Caso legalizem as drogas o desastre será maior, maior oferta, maior consumo, maior nível de dependência, maior nível de violência, pois, quem rouba para comprar a droga continuará roubando para comprar seja a droga legalizada ou não. Este é meu entendimento.

  • lailton4

    pelos menos o juiz foi justo em dizer que essa mãe precisa de apoio e não ponissão. já que os programas do governo não dão assistência como se deve ser dada.

  • calfredo45201042

    só contando com um magistrado com a experiencia do dr.josedantas para mitigar uma situação dessa natureza, é verdade, o q menos vai trazer resultados positivos numa situação dessa é a punição pela punição, a mãe quer o melhor para os seus filhos sempre, e, com essasenhora ñ é diferente, sehá algúm culpado e creio q há, é quem se omite de implementar uma politica pública de enfrentamento, quer no combate, quer no tratamento, essse sim tem de ser punido, mas,até achar o dito cujo as familias já têm se acabado.

  • dnfrm2000

    O comentário o qual o magistrado falo ao final da reportagem é muito sábio "Na minha visão , essa mãe precisa mais de apoio que punição"existe uma punição para esta mãe ao ver sua filha drogada? Existi uma punição maior do que procurar ajuda e a nação não ter como garantir ajuda? Nosso direitos previstos em constituição vão de água a baixo em uma situação como esta e muito outras, pois os nosso políticos(votem neles) sim precisão de punição eles sim que maltrata a população em geral e ninguém puni. isto sim é revoltante os maus tratos por parte do sistema.

  • jacksoninacio

    É com muito pesar e indignação que venho informar que a pobre mãe desse menina acabou de ser presa hoje a tarde em virtude da situação detalhada na reportagem acima descrita. Agora lhes pergunto: Onde esta a justiça na droga desse pais? Onde uma mãe num ato de desespero tenta salvar a vida de sua filha a qualquer custo, chegando ao extremo de acorrenta-la, enquanto as "autoridades de M****", ficavam de braços cruzados à empurrando de um lado para o outro. AGORA LHES PERGUNTO, QUE DROGA DE JUSTIÇA É ESSA DO BRASIL???

  • gehrald

    Provérbios 22:6 "Ensina a criança o caminho que deve andar e ainda quando for velho, não se desviará dele.? EIS UM PROVÉRBIO QUE O ESTADO(AS PESSOAS QUE FAZEM AS POLÍTCAS PÚBLICAS), E A FAMÍLIA NÃO PÕE EM PRÁTICA. ENTÃO FICA A PERGUNTA. ATÉ QUANDO? PARA DESESPERO DESSA FAMÍLIA E MINHA TRISTEZA COMO EDUCADOR QUEM VAI FZR ALGO POR ESSE CIDADÃOS? ONDE ANDAM OS NOSSOS IMPOSTOS QUE NÃO CHEGAM NUMA POLÍTICA SÉRIA, ABRANGENTE... ISSO DÓI MUITO. VIVER EM UM PAÍS QUE TEM OS POLÍTICOS MAIS CAROS DO MUNDO E OS EDUCADORES MAIS MAL PAGOS.

  • hpgeography

    Tá certa a mãe, enquanto a prefeitura não providenciar meios eficientes de tratar a garota a única solução paliativa para preservação do resto de saúde e vida dela é essa.